Caito Mainier é um dos diretores do programa Larica Total (Canal Brasil). Há uma semana, a gente começou uma troca de emails. De tanto escrever, o que era para ser só alguns emails acabou se transformando em uma entrevista.

Lígia: Como é dirigir um programa de televisão?
Caito: Um primeiro desafio é não ficar tentando advinhar o que as pessoas vão pensar do seu trabalho. É uma ilusão evitar falar disso ou daquilo por medo do que o público vai achar. Quando um diretor faz isso, o resultado é um programa superficial, em que não se fala nada muito profundo, nem muito realista, nem muito crítico, nem muito interessante para tentar escapar de não ser compreendido, ou mal entendido, ou entendido demais.
Lígia: Quais são os critérios da direção do Larica Total?
Caito: A começar pelo nome, a gente fala o que a gente acha legal e só. Falamos do que a gente gosta, do a gente considera importante, assim, sentimentalmente. Dessa maneira, mais do que bom ou ruim, o programa se torna sincero. Mas, para ser sincero mesmo, a gente não pensa em nada disso quando faz! A gente apenas faz. No final, chegamos a um resultado que nos agrada. Pronto.

Lígia: Como as gravações são organizadas?
Caito: Gravamos no tempo que for preciso. Se dá tudo certo, levamos um dia; se der tudo errado, levamos um mês. No entanto, só de gravar priorizando a cena e não a “eficiência”, a gente nunca levou mais de um dia. E o resultado que levamos para a ilha de edição é superior ao que geralmente vemos por aí. Na edição, é a mesma regra: leva-se o tempo que precisar. E, geralmente, precisamos do mesmo tempo que se levaria normalmente. O segredo é estar presente em todas as etapas. E estar presente significa fazer, ao invés de dizer que faz, privilegiando o resultado no tempo – e não o tempo com qualquer resultado. Se um dia o Larica ficar ruim, é porque precisamos gravar de novo. Se ficar ruim de novo, aí a gente para! (risos)
Lígia: Por que o nome Larica Total?
Caito: O programa nasceu por causa do nome. Um programa de um cara tentando fazer seu próprio programa de culinária chamado Larica Total. Partindo dessa premissa, construímos todo o personagem. O resultado disso é a graça toda. No iníco, pensamos em explicar, mas depois percebemos que era muito melhor que as pessoas fossem descobrindo sozinhas. Vejo o sucesso do programa como uma vitória do feio sobre o sofisticado. Sabemos que o nome é uma transgressão. Toda vez que leio num grande jornal “Larica Total”, eu me sinto realizado. Mais uma missão cumprida. O Globo, por exemplo foi o último grande jornal a dar alguma noícia sobre o Larica.
Lígia: Pelo que percebo, existe então uma questão política no programa.
Caito: Sim, mas nossa forma de produzir não foi fruto de uma teoria ou de um pensamento estratégico anterior. Na verdade, foi fruto da falta de recursos do projeto. Começamos a fazer o Larica com a estrutura básica: pesquisa, roteiro, ensaio e câmera. Tres roteiristas-diretores, dois produtores, um técnico de som e o ator. Só. Equipe de sete pessoas. A locação do programa é real (apartamento onde vive o ator-apresentador Paulo Tiefenthaler). Um estúdio tem muito mais praticidade e controle, mas para as nossas pretensões de fazer um programa sobre a “culinária verdade” não havia lugar melhor.

Lígia: A prioridade voltada para a cena em curso seria uma tentativa de captura do real?
Caito: Fazer uma cena – qualquer uma, em qualquer lugar – que dê certo depois da edição, que emocione, que comunique é fazer com que a cena, no momento presente da gravação, funcione. Se a cena funcionar na hora, ali na sua frente, ela vai funcionar depois. Isso parece meio óbvio, mas não é tão fácil de se obter na prática. Há tanta gente nos sets de filmagem, tanto maquinário, luz, interrupções, dispersões que, quando o take termina e o diretor diz “ótimo!”, ninguém sabe na verdade se o take foi realmente bom. Quando a gente começou a acertar o foco na cena em si, nas coisas do momento, aproveitando e incorporando os improvisos, nós começamos a abrir a possibilidade de acrescentar pequenas peças de estrutura.
Lígia: Como assim?
Caito: Nas gravações seguintes, alugamos um kit básico de luz para contrabalancear apenas a luz natural do set. No outro episódio, chamamos uma figurinista. No outro, fizemos gravações externas, na rua. Começamos então a chamar atores e não-atores para compor a vida do personagem. Sempre mantendo o foco na cena. O foco no set de filmagem deve estar naquele micro frágil espaço-tempo onde a realidade da ficção acontece.
Lígia: Quando começa a próxima temporada do programa?
Caito: A segunda temporada começa a ser gravada em maio, e a estreia será em outubro.
Lígia: E os próximos projetos?
Caito: Ainda faremos mais algumas temporadas do Larica Total. Temos também outros projetos em desenvolvimento, mas isso ainda é segredo.

Larica total é exbido pelo Canal Brasil, às sextas-feiras, 00h30, com direção de Caito Mainier, Felipe Abrahão e Leandro Ramos. Os programas também podem ser vistos na internet. Todas as imagens são do site do programa.